Em 16 de janeiro de 2010, aconteceu a primeira edição do HQ em Pauta – Encontro de Profissionais e Leitores de Histórias em Quadrinhos –, com uma série de atividades gratuitas, voltadas para o debate sobre HQs com conteúdo histórico e adaptações de obras literárias.

O evento ocorreu na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Corrêa, em São Paulo, e teve início às 11h com a exibição do documentário “Dom João Carioca”, produzido pelo canal Futura, e logo depois teve uma pausa para o almoço para dar início às palestras e debates.

Logo após o almoço, deu-se início à palestra de “Conteúdos históricos e adaptações de obras literárias para HQ ao longo do tempo”, com o editor Franco de Rosa.

Antes de Franco de Rosa iniciar a sua palestra, o organizador do evento Edson Rossatto distribuiu alguns exemplares da HQ Novos talentos Fnac. Para conseguir a sua você tinha que mostrar que era bom em história do Brasil.

Franco começou a sua palestra exibindo uma série de imagens de HQs antigas, da época de 1940, até as atuais, e levantou a questão: O que elas têm em comum?

A resposta é o traço mais realista e desenhos acadêmicos, com exceção das obras de Spacca. Isso é devido que desde os anos de 1940 se faz adaptações de obras literárias e sempre se exigiu um desenho mais realista.

Mas Franco logo em seguida levantou outra questão: Por quê voltar a adaptar livros para HQ? A resposta seria o mercado e o desinteresse dos alunos em ler o que está gerando o analfabetismo.

O problema agora é que as crianças não sabem ler quadrinhos e isso gera uma nova questão para as editoras: Que obra adaptar?
Afinal livros de 400 a 500 páginas no original transportados para HQs não são nada fáceis, e a função das histórias em quadrinhos é dar um novo ritmo para a obra.

Uma curiosidade da época que Franco comentou é que os escritores recebiam por palavra escrita, por isso as obras são tão extensas.

Outro fato importante que Franco expôs é que em 1905 é considerado o ano em que a primeira HQ no Brasil foi publicada com o lançamento da revista Tico Tico e pesquisas mostram que em 1906 já existia uma adaptação de o Guarani de José de Alencar.

Isso se deve ao fato de que as primeiras HQs eram voltadas para as peraltices das crianças da época, o que fez os temas se esgotaram rapidamente, e a saída foram as adaptações.

E no assunto mercado Franco demonstrou que em 1940 é que houve o “boom”, principalmente no Estados Unidos onde se vendia muita adaptação. O palestrante explicou as diferenças da época entre o mercado europeu e o americano, enquanto nas Américas a preocupação era lançar para vender, na Europa as obras eram dividas pro fascículos o que dava mais tempo para os quadrinhistas trabalharem e evoluírem o próprio traço.

Franco de Rosa levantou mais questões durante sua palestra como “HQ é uma estória ilustrada?”, “História em Quadrinhos é menor que literatura?”, e ainda comentou que na Argentina sempre se adaptou romances principalmente em sua fase áurea.

Durante toda a palestra, Franco mostrava além das imagens, publicações raras que ele havia levado para exemplificar melhor os fatos que ele demonstrava. O quadrinhista conclui, agradeceu os presentes e abriu para as perguntas.

Depois de uma pausa de 10 minutos o publico estava aguardando a próxima mesa redonda que iria falar sobre a nova identidade da HQ nacional, com o desenhista Spacca e o jornalista Paulo Ramos, sob mediação do jornalista Jota Silvestre.

Começada a mesa redonda sobre a nova cara da HQ nacional, Jota Silvestre já coloca uma pergunta para Paulo Ramos: “É mais fácil aprender história ou literatura via quadrinhos?”

Paulo Ramos responde de forma pontual: “Não sei”. Mas acrescenta: “HQs em sala de aula podem ser um instrumento para instigar o aluno a leitura”.
Jota pergunta a Spacca se o tema da adaptação influencia na produção da HQ, e o quadrinhista responde que as mesmas características narrativas são usadas em estórias inventadas ou não. E ainda acrescenta. “Se eu fosse fazer uma HQ sobre a minha experiência no jornal da Folha dos anos de 1980, eu teria que fazer pesquisa do mesmo jeito. Qualquer estória que eu pegue vai ser difícil de fazer”.

E mais uma questão é levantada por Jota Silvestre: “Qual o limite da licença poética para o quadrinhista?”.

Spacca responde que todo quadrinhista deve estudar a proposta da obra literária e as características do romance, e completa dizendo que a decisão de se optar por fazer determinada estória em uma HQ é a mesma feita para o cinema, é necessário a mesma pesquisa de cenário, roupa, costumes, música e etc. E finaliza: “É necessário ter realismo”.

Claro que falando da nova cara das HQs no Brasil o assunto mercado não estaria de fora, e Paulo Ramos afirma, “as editoras buscam as listas governamentais como o Programa Nacional Bibliotecas da Escola, do Ministério da Educação (PNBE), e podemos ver o resultado disso com a criação do selo de quadrinhos da Cia das Letras, e isso é algo muito positivo”.

Nesse momento também foi mencionado o colecionismo que ocupa cerca de 70% do mercado e como isso influencia muito, e citaram os álbuns de HQs que estão indo para as grandes livrarias como a Livraria Cultura que tem uma área exclusiva para as histórias em quadrinhos.

Segundo Paulo Ramos as HQs hoje chegam a novos leitores, um novo público, que quer ler uma obra mais intimista, como exemplo, Retalhos de Craig Thompson, que teve uma tiragem de 4 mil exemplares e hoje a primeira edição está esgotada.

Comentou-se do aquecimento do mercado com o surgimento das listas do governo em 2006 e como essas compras propiciam tiragens maiores, a possibilidade de chegar nas escolas e até uma melhor formação profissional.

Mas depois de tantas coisas boas, qual seria o lado negativo disso tudo?

Algumas questões foram colocadas para serem refletidas: Essas listas geram um conformismo das editoras? O mercado só apostaria no que tem certeza de que vai vender através das listas, não abrindo espaço para novas ideias? A obra autoral ficará restrita ao universo independente?

Paulo Ramos acrescenta: “A entrada dos quadrinhos nas grandes livrarias não tem mais volta e está a margem do PNBE. É um mercado consolidado com um público que deseja ler uma narrativa em um livro”.

Encerrada a mesa redonda, a próxima atividade foi o bate-papo, contando os bastidores da HQ “História do Brasil em Quadrinhos: Proclamação da República”, com a presença do roteirista Edson Rossatto, o desenhista Laudo e o colorista Omar Viñole.

O trio conversou bastante e passaram por todo o processo de produção do álbum, desde o roteiro, esboços, traços e arte final, conferências e revisões e a importância de uma boa pesquisa histórica para não comprometer o projeto.

Depois abriram espaço para as perguntas, onde o público ficou curioso para saber onde foi feita à pesquisa, a dificuldade de se desenhar tantos personagens histórias e aonde eles buscam referencias e a rotina de trabalho do desenhista e do colorista.

Quadrinhistas e editores compareceram para prestigiar o evento, entre eles Cláudio Martins, editor da Zarabatana Books.

Quem ficou até o final pode conferir o lançamento de exposição História do Brasil em Quadrinhos: Proclamação da República, e garantir o seu autógrafo, e ainda adquirir os álbuns Dom João Carioca, História do Brasil em Quadrinhos: Independência, Debret em viagem Histórica e Quadrinhesca , Santô e os pais da aviação, Jubiabá, A leitura dos quadrinhos, Muito além dos quadrinhos, Quadrinhos na educação e Como usar as histórias em quadrinho na sala de aula, e é claro bater um papo com os autores que estavam presentes.

Durante o evento, aconteceu o lançamento da exposição História do Brasil em Quadrinhos: Proclamação da República – Bastidores e curiosidades históricas, que ficará na Biblioteca Pública Viriato Corrêa até 28 de fevereiro.

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